Sexta-feira, 18 de Outubro de 2013

SONHO vs MEDO

Eu tenho medo de deixar passar o tempo e não me ver nele. De olhar muito para a frente, ou muito para trás, ou muito para qualquer outra direção. E acabar por me esquecer de olhar ao espelho. De reparar nas marcas do rosto, nos contornos do nariz que se vão modificando ano após ano. Tenho um grande receio de me perder ao não saber mais dizer a cor dos meus olhos – ou pior: de não saber mais se eles ainda brilham por alguma coisa apaixonante. Sem contar com o medo de poder vir a  ter rugas no coração. As nossas motivações diárias acabam tornando- se mecânicas. Somos iludidos pela premissa de que as rédeas da nossa vida são nossas de verdade. Deveres e responsabilidades tiram o lugar especial que os sonhos tinham. Mas nós acabamos por nos tornar tudo aquilo que negávamos ser: descrentes no que realmente queremos viver. E assusta- me mais ainda  que os meus sonhos sejam tão descartáveis como copos ou pratos que se deitam fora após uma festa lá em casa. Corredores que somos (porque é assim que me vejo), acabamos por esquecer qual é a corrida que vale mesmo a pena. Mesmo que a corrida exija que paremos um pouco para respirar ou que mudemos de passeio no meio do caminho. O meu receio é de que estejamos pouco a pouco, a matar os nossos sonhos. Pequenos pormenores fazem a diferença, resta-nos saber identificá-los. Agente esconde-se  atrás das obrigações sociais do dia a dia e utilizamo-las como desculpas para depois, para o que ficou por fazer e por dizer. Lembro-me que quando era miuda, tinha um medo brutal do escuro. Era só fechar os olhos que a imaginação fazia- me ver um mundo de possibilidades que variava de monstros, a seres especiais de outras dimensões. Os sonhos não mudam, assim como os meus medos não desapareçam. O que mudou foi a capacidade de lidar com eles. Aos 10, aos 20, aos 35 e aos 50, os sonhos e os medos simplesmente se mantêm por lá...num recanto do nosso imaginário, mas agente parece esquecer- se  disso e continuamos com o campo de visão limitado num ângulo pouco menor que 90 graus. A minha dor é que um dia eu não consegua ver além dos meus olhos. E nesse meio tempo, eu tenho medo de me perder dos sonhos encaixotados, da infância risonha, da espontaneidade diária e de tudo aquilo que foi feito para fazer girar a vida.

 

Estou...:
publicado por Sem voltar atrás... às 12:22

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2 comentários:
De momentosdisparatados a 22 de Outubro de 2013 às 22:07
Os nossos medos vão mudando ou então como dizes vamos-mos adaptando.
Tenho medo de a vida não me deixar concretizar os meu objetivos. Não que sejam grande objetivos, mas coisas simples daquelas que nos fazem felizes.
Tenho medo de perder a capacidade de gostar do me trabalho, de deixar de ter paciência com os idosos e de pensar em mim em vez de pensar no seu bem estar. Tantos medos...
Beijinho
De Sem voltar atrás... a 23 de Outubro de 2013 às 09:54
Os nossos medos são comuns à da maioria dos mortais, é sinal de maturidade saber viver com eles...sabes qual é um dos meus maiores medos? A solidão...prefiro antecipar a minha "partida" do que agonizar de solidão!
Um beijinho enorme.

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