Segunda-feira, 25 de Março de 2013

A mão que embala o berço.

"O amor de mãe por seu filho é diferente de qualquer outra coisa no mundo. Ele não obedece a lei ou piedade, ele ousa todas as coisas e extermina sem remorso tudo o que ficar em seu caminho." (Agatha Christie)

 

 

Já escrevi acerca de quase tudo aqui pelo blog, mencionei factos, pessoas, sentimentos, emoções, enfim...hoje dei por mim a pensar que nunca escrevi acerca da minha mãe, e isso tem um porquê! Sinto-o bem vivo dentro de mim, mas mais uma vez, não o consigo passar para aqui...querem saber a verdade? Podem chamar-me fria, intolerante, incompreensiva e tudo o mais que queiram, mas a verdade é só uma, a ligação que sinto com a minha mãe, não é uma “coisa” assim do outro mundo! Ai céus, que Deus nosso senhor me perdoe, mas a verdade verdadeira é mesmo essa! Mas também isso tem uma razão de ser. Culpei-me durante demasiado tempo por sentir isto, mas agora chega, preciso deitar cá para fora porque senão corro o risco de um dia ficar engasgada no meu próprio silêncio! Então cá vai...não tenho uma única recordação dum abraço, dum carinho, duma palavra meiga...não recordo palavras de conforto, de incentivo, de compreensão, de encorajamento...não recordo o colo, as brincadeiras, a leitura duma história na hora de deitar, das suas palavras pela manhã ao acordarem-me...da minha mãe, não guardo recordações deste tipo de manifestações, que considero normais entre mães e filhas! O que recordo dela afinal de contas? As castrações impostas à minha irmã e mais tarde a mim, os gritos, as palavras ameaçadoras, os olhares desconfiados, as inúmeras tentativas de suicídio, os dias e noites em que ela se metia na cama e era como se o resto do mundo e das pessoas que faziam parte da sua vida, deixassem de existir, as chantagens emocionais, os caprichos! A minha adolescência foi passada assim...e se nessa altura eu achava que tudo aquilo me iria deixar marcas, hoje tenho a certeza que tudo o que vivi, marcou profundamente a mulher que sou hoje! Os sentimentos que reprimi ao longo dos anos pela minha mãe, refletem-se na mulher, na mãe e na filha que eu sou! Não consigo abraçar a minha mãe, mas abraço a minha filha como gostaria de ter sido abraçada...não beijo a minha mãe sofregamente mas beijo a minha filha como gostaria de ter sido beijada por ela! Cada vez que preciso levantar a voz para a pequena “M”, vêm-me ao pensamento os gritos dela e como isso me deixava aterrorizada...quando penso como será a pequena “M” daqui por uns anos, penso na forma como a minha mãe não soube lidar comigo, com os meus medos, com as minhas ansiedades e frustrações próprias da adolescência, penso na forma como ela não me acompanhou, não me ouviu, nem falou...daí as minhas inseguranças, daí a minha recusa de chorar na frente seja de quem for, daí o meu pavor a gritos e discussões, daí um sem fim de frustrações que me têm acompanhado ao longo dos anos! Lembro-me de ter 14 anos, e dormir com a chave de casa debaixo da minha almofada, pelo receio de que a meio duma crise, ela saísse de casa indo sabe Deus para onde...lembro-me de acordar a meio a da noite e ver o meu pai completamente desnorteado a tentar levantá-la do chão, porque tinha tomado uma “dose” extra de antidepressivos...ali fazia as necessidades, ali dormia e ali recuperava, porque nenhum de nós tinha força para a levantar do chão! O Super Pai, nunca a levava para o hospital, preferia sofrer todo aquele calvário entre 4 paredes e eu, ia por arrasto! Foram tempos difíceis e que fizeram muitas mossas, a Super mana já tinha casado e seguido a sua vida, de modo que os “melhores petiscos” sobravam para nós os dois! Anos mais tarde, a minha mãe foi recuperando das crises nervosas e lentamente, sempre com acompanhamento psiquiátrico, recuperou quase na totalidade. De quando em vez, eu e a Super mana, em conversas a 3, tentamos saber o porquê de certos comportamentos ou em algumas situações, a falta deles, e ela lá se vai desculpando, dizendo que os nervos lhe tinham roubado anos de vida, o trabalho não lhe deixava  muito tempo para nós, e que a sua mãe também tinha sido assim para ela...a diferença é que a Super avó tinha 7 filhos para criar, normal que não conseguisse distribuir o carinho e a atenção que eles precisavam! Desculpas, penso eu para mim...enfim, seja como for, existem coisas para as quais não consigo encontrar respostas, e isto minhas amigas, não se prende pelo facto de eu ser uma pessoa má, bruta, fria, intolerante e incompreensiva...a questão aqui é que há coisas que não me entram na cabeça nem no coração! Hoje a minha mãe, é uma mulher muito diferente daquela de quem eu guardo todas estas recordações...o tempo passou, ela amoleceu, e eu e a Super mana, somos mulheres, tomámos o pulso à nossa própria vida, e a mãe hoje, concorda com quase tudo o que nós fazemos e dizemos! Deixou de ter poder sobre nós, a sua palavra, as suas ameaças, as suas críticas deixaram de ter poder e de fazer sentido, e assim sendo, tem tentado tornar-se a mais doce das mães...só que o tempo não volta atrás, não se consegue passar uma borracha nas nossas memórias e fingir que não se viveu nada daquilo! Eu gosto da minha mãe, juro que gosto, assim como sei que também ela gosta de nós, à sua maneira, mas eu sei que gosta, por mais amarga que eu possa ter sido nas palavras e frases que escrevi acima, eu gosto da minha mãe, mas o que eu queria mesmo era sentir muito mais do que “gostar”! Queria ser nela que eu encontrasse o meu porto de abrigo, queria pensar nela a cada momento de angustia, queria conseguir procura-la quando preciso de conselhos, queria chorar e conversar acerca do que me atormenta, queria que a sua opinião tivesse peso nas minhas tomadas de posição...queria olhar para ela e não ver apenas a minha mãe, a pessoa que me gerou...queria olhar para ela e ver o meu tudo, o meu mundo e a minha vida! Peço perdão a Deus, se estiver a ser injusta e egoísta, assim como também peço a Deus que lhe perdoe, se a justiça das palavras estiver ao meu lado!

Estou...:
publicado por Sem voltar atrás... às 15:36

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